DIALOGISMO E TRANSNACIONALIDADE EM “A CIDADE VESTIDA DE SANGUE”, DE URBANO TAVARES RODRIGUES

 

Sandra Helena Terciotti Carvalho – UNISA-SP

 

 

Neste trabalho, pretendemos apontar o dialogismo existente entre “A cidade vestida de sangue”, de Urbano Tavares Rodrigues, o Apocalipse, de S. João, e o Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Para tanto, partiremos da assertiva de Umberto Eco de que “os livros sempre falam sobre outros livros, e toda estória conta uma estória que já foi contada”[1]. Antes, porém, de levantarmos as semelhanças que aproximam esses três textos, falaremos um pouco sobre o autor do conto em estudo.

Urbano Tavares Rodrigues é um dos mais prolíferos escritores da literatura portuguesa contemporânea. Sua produção literária é constituída de mais de trinta obras de ficção, traduzidas parcial ou totalmente para mais de quatorze idiomas.

Historicamente, Urbano pertence à geração de escritores que viveram a maior parte de sua vida sob a égide do fascismo salazarista que vai de 1932 a 1968. Literariamente, o escritor pertence à geração de 50 cujas referências são sobretudo o Neo-Realismo português e a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre.

A atividade literária de Urbano engloba vários gêneros, como o romance, a novela, o conto, o teatro, a literatura de viagem, a crítica e o ensaio. Mas seus contos e romances são, segundo a crítica especializada, o que há de melhor em sua obra. Sua produção literária costuma ser dividida em duas vertentes: cosmopolita e alentejana; esta telúrica, aquela nitidamente influenciada pelo existencialismo sartriano e, posteriormente, pelo marxismo de Marx e Engels. Daí a recorrência em sua obra de temas que extrapolam os limites da nacionalidade como o desespero existencial (fundado no absurdo da existência) e a fraternidade social a qual se transforma em um meio de superar o egoísmo do indivíduo (fonte da angústia existencial) e da sociedade capitalista (origem da destruição da humanidade).

O conto “A cidade vestida de sangue”, analisado neste estudo, exemplifica bem isso. Pertencente à vertente cosmopolita, “A cidade vestida de sangue” é um conto alegórico que dialoga, ao mesmo tempo, com o mito bíblico do “Apocalipse” e com o Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Ou seja, a primeira parte do conto de Urbano, que vai do início até o rompimento entre Joaninha e o namorado, dialoga com o romance de Huxley; a segunda, que começa no parágrafo introduzido pelo período “A estranha mancha de um vermelho-acastanhado com laivos de sangue, matéria quase lamacenta, parece agora descer”, dialoga com o livro de S. João.

Em princípio, o dialogismo entre um conto de um escritor assumidamente marxista e o último livro do Novo Testamento causa uma certa estranheza. Mas as circunstâncias em que foi escrito esclarecem as várias semelhanças detectadas entre ambos. Publicado pela primeira vez no Diário de Lisboa, em janeiro de 1969, “A cidade vestida de sangue” foi escrito em 1968, no interior de uma das celas da prisão de Caxias para onde o autor fora levado pelos agentes da polícia política de Antônio de Oliveira Salazar, sob a acusação de subversão. Durante os três primeiros desses seis meses de prisão, Urbano Tavares Rodrigues foi impedido de ler e só lhe foi permitido escrever, uma vez por semana, uma carta à família, após o que tinha de devolver ao carcereiro papel e caneta. Mas, à custa de muita insistência, o autor conseguiu que lhe dessem a Bíblia para ler e, apropriando-se furtivamente da carga da caneta esferográfica, escreveu em papel higiênico “A cidade vestida de sangue” e outros contos que, dois anos depois, foram reunidos e publicados com o título de Contos da solidão. A leitura da Bíblia, feita nessa ocasião, explica, portanto, as muitas semelhanças encontradas entre o livro do Evangelista e o conto do escritor português.

Tal como o romance de Huxley, “A cidade vestida de sangue” assume contornos de uma grave advertência a uma sociedade escravizada pelo artificialismo e egoísmo que desencadeiam um grande cataclismo que destrói completamente a cidade de Lisboa, metaforizando a humanidade pela metonímia.

A ligação entre o conto de Urbano e o romance de Huxley dá-se tanto no plano ideológico (crítica à sociedade dominada pela tecnologia), quanto em termos de ambiente (sociedade futurista, altamente alienada dos problemas sociais), ao passo que o diálogo entre o conto e livro de S. João dá-se no plano temático (destruição da humanidade por um cataclismo celestial), como mostram os excertos 1 e 2:

 

Excerto 1:

 

Toda a gente anda mais depressa do que há dez anos. Ainda se encontram caras de fome mesmo na Avenida. Mas numa sociedade de consumo que se respeita não se fala nessas coisas. As mamãs e os meninos da classe A 2 e até os da classe B l tornaram-se mais loiros. Obviamente porque tomam o leite mais nutritivo. Porque fazem mais exercício do que as criaturas terrosas das classes D l e D 3, acantonadas na periferia da capital em bairros que não interessa ver. Em bairros que não são representativos da política de desenvolvimento.

As estações do metropolitano estão coalhadas de trajes coloridos, por entre os quais circulam, regendo a ordem pública, alguns indivíduos sóbrios de gabardina azul e óculos pretos. Os fuzileiros americanos, com as suas metralhadoras eloquentes, à velha maneira pop do Roy Lichtenstein, dominam os cartazes monumentais dos cinemas. A comercializ_ção e a vulgarização são os ditames sagrados para as classes B 5 e C 1. Os novos bancos da Avenida – orgulho da cidade -, que lembram cadeirões de um vasto consultório psiquiátrico, foram planificados de acordo com um aprofundado estudo, que se deve ao eficiente labor do Instituto Superior de Técnica de Vendas e de Ocupação Socialmente Produtiva dos Lazeres. Já não há mendigos: foram todos expulsos da cidade (alguns, mas, ao que se supõe, muito poucos, exterminados por excesso de zelo, como há bastantes anos sucedeu noutro ponto do globo).

Não, nada neste mundo, ou muito pouca coisa, é verdadeiramente original. Aliás, todas estas multidões que os cinemas começam a despejar para a rua estão persuadidas, enfim, de que a sabedoria reside na aceitação de umas tantas diretrizes básicas, que os laboratórios do pensamento nacionalista não deixam de lhes servir ainda quentes do esforço mental posto na sua adaptação à realidade. Porque, mesmo numa sociedade altamente progressiva – e regrada já se vê -, a tradição continua a pesar. Não é de modo algum incompatível com as satisfações pessoais do tipo do hot dog, do sorvete atómico, da psicoterapia em grupo (mas, atenção, nada de psicodramas nem de teatro catártico: o teatro é só para a igreja, teatro sagrado, e para os consultórios onde nos entregamos ao prazer inocente de triturar e ler o passado). Os automobilistas ainda não deixaram de descompor os peões, nem estes de tourear os automóveis, embora a fricção entre os dois grupos se tenha atenuado. Ao volante, ainda todos ou quase todos se tratam por tu. Aliás, é cada vez maior o número de tristonhos empregadores que apostam todo o esforço e todo o sarro do quotidiano na aquisição, a prestações, de uma miniviatura que lhes há-de assegurar o senhorio do mundo, que é como quem diz, da estrada marginal, embora não tardem muitos deles a perder, por falta de pagamento pontual, essa prerrogativa tão marcante.

 

Excerto 2:

 

A estranha mancha de um verrnelho-acastanhado com laivos de sangue, matéria quase lamacenta, parece agora descer. Amálgama de medos nocturnos a pesar sobre a cidade tranquila. Sobre a cidade que começa a perder a tranquilidade. E a ameaça define-se, não é já uma nódoa escura, mas como que um novelo de cor roxa, que se aproxima vertiginosamente. Milhares de cabeças inquietas espreitam aquele crepúsmlo nunca sonhado. As palmas das mãos ficam húmidas. Os velhos e as crianças estremecem. Os ricos mais ricos, nos seus escritórios climatizados, os grandes e sorridentes fabricantes de armamento e do progresso tecnológico, cerram o punho, com rosas de ouro pendentes, contra a avalancha celeste. A maldita natureza não foi ainda domada. Que longo silvo, que universal ranger de dentes, que cataclismo absurdo e supérfluo será aquele?

O sol extingue-se. Desfolharam-se as suas últimas pétalas no Armamento que se dilacera sob a pressão daquela coisa monstruosa. O homem da rua já foge, sem saber exactamente de quê nem para onde. Nem os aviões particulares, nem os abrigos antiaéreos vão poder salvar o povo manso, opiado, da cidade, agora transformado em besta feroz com centenas de patas ansiosas. Os cauteleiros e os ardinas, mais céleres na corrida, mais habituados a esgueirarem-se por entre os carros, atropelam e calcam aos pés aquela humanidade fiácida e desbotada das repartições oficiais.

É uma nuvem que desaba? Praga vermelha ainda sem estrondo de tempestade. Ferragens, carvão, minério desconhecido de que asteróide desintegrado?

Na sua fuga sem destino, invadindo os armazéns, os estancos, as boutiques, os restaurantes, avançando e retrocedendo, arremetendo contra as enormes portas de vidro dosestabelecimentos de crédito, cujas células fotoeléctricas se avariaram, o povo silaba atropeladamente o alfabeto da morte.

O horizonte escureceu ainda mais. O potente zumbido dos “jactos” toma-se estertóreo. Dois camiões de propulsão chocam e os motoristas são projectados para fora das cabinas e vão esmagar-se, como ratos, no xadrez alvinegro pelo qual se estende uma sombra de magia destruidora. Entorna-se gasolina, as chamas elevam-se na ampla Praça do Cavalo Negro.

E a catástrofe atinge o auge. Ou talvez ainda não. Raros fios de luz, equívocos, ziguezagueiam pela treva inchada da abóbada celeste. Caem já grandes pedras selvagens, blocos de lava, de peste solidificada, envoltos em poeira amarela, sobre os terraços, sobre os campanários, sobre as cúpulas, sobre os terraços, sobre os observatórios siderais, sobre os mirantes, sobre as palmeiras e os jacarandás, sobre as flores, sobre as pessoas, sobre os autocarros de três andares, sobre os espavoridos quarteirões da Avenida.

Troncos de gelo, que porventura atravessaram milhões de quilômetros de espaço, estafe liquefazendo. O tumulto dos penedos, que, ora rapidamente ora ao retardador, derrubam as sacadas, os telhados, prédios inteiros que desabam uns sobre os outros e sobre os cadáveres, sobre o sangue imaturo que escorre por travessas e por becos, esse tumulto fumega, cintila rola,para onde?, para a apoteose da dor?, para a margem do nada absoluto?...

Vozes desgarradas, as últimas vozes da razão na vasta cidade-fossa que se desmorona, avisam:

- Foi a Lua que caiu! Fui a Lua que caiu em cima de nós!

E outros gritam:

- É o castigo! É o castigo do egoísmo!

E outros ainda gemem:

- Isto tinha de acabar mal. Eu bem dizia...[2]

 

O excerto 1 ressalta perfeitamente o entrelaçamento intertextual observado entre “A cidade vestida de sangue” e o Admirável mundo novo, de Huxley, evidenciado pela (o):

1ª) presença de uma sociedade futurista, preocupada apenas com o consumo de bens materiais, subdividida em classes alfanuméricas (o narrador do conto refere-se às classes A2, B1, B5, C1, D1 e D3) e alfabéticas (o narrador do romance fala das classes Alfa, Beta, Delta, Gama e Ípsilon);

2ª) visão trágica, profética e aterradora de uma sociedade artificial escravizada pelo materialismo e pela sofisticação;

3ª) uso do helicóptero como um meio de transporte prosaico;

4ª) presença de prolixos nomes de instituições – como o Instituto Superior de Técnica de Vendas e de Ocupação Socialmente Produtiva dos Lazeres, referido no conto, e os Escritórios de Propaganda pela Televisão, pelo Filme Sensível e pela Voz e Música Sintéticas, referido no romance –, cuja função é zelar pelo “bem-estar” de uma população totalmente alienada dos problemas do mundo e persuadida “de que a sabedoria reside na aceitação de umas tantas directrizes básicas, que os laboratórios do pensamento nacionalista não deixam de lhes servir”;

5ª) proximidade entre as personagens femininas Joaninha e Lenina, caracterizadas pela aversão aos odores corporais e pela aceitação incondicional das leis impostas pelo meio em que vivem;

6ª) presença da voz narrativa da terceira pessoa impessoalmente onisciente.

Mas, como apontado anteriormente, “A cidade vestida de sangue” não tem apenas o romance de Aldous Huxley como intertexto. A segunda parte do conto retoma explicitamente o mito bíblico do “Apocalipse”, é certo que não sem antes fazer um desvio pelo romance Admirável mundo novo. O excerto 2 ressalta, por sua vez, as semelhanças existentes entre o conto de Urbano e o livro do Evangelista, as quais vêm à tona por meio de:

1ª) empréstimos de imagens terrificantes como: escurecimento do sol, avermelhamento da lua, chuva de granizo e destruição pelo fogo;

2ª) presença do mesmo núcleo narrativo: um flagelo celestial terrível que castiga a humanidade por seus pecados e abusos históricos;

3ª) evocação de um tempo impreciso;

4ª) destruição de duas cidades-mulher (Babilônia e Lisboa) onde reinavam, respectivamente, a luxúria e o egoísmo do mundo capitalista, assoladas pelo pranto, pelo fogo e pela morte;

5ª) presença de uma paisagem humana desindividualizada e anônima que nada faz para combater a devassidão (Babilônia) ou a ausência de fraternidade social (Lisboa), levando à fúria divina;

6ª) presença do número sete: no conto de Urbano, a ação se desenvolve às 7h; no livro de S. João, esse número é bastante recorrente (são sete selos, sete trombetas, sete sinais, sete cálices; sete igrejas, sete candeeiros de ouro; sete estrelas que representam os bispos das igrejas; sete lâmpadas ardentes que representam os sete espíritos de Deus, sete chifres do Cordeiro, sete qualidades do Cordeiro (virtude, divindade, sabedoria, fortaleza, honra, glória e bênção), sete anjos que desejam a Deus sete coisas (bênção, claridade, sabedoria, ação de graças, honra, virtude, fortaleza), sete pragas (1ª úlcera maligna, 2ª e 3ª sangue no mar e rios, 4ª calor, 5ª trevas, 6ª seca do Eufrates, 7ª queda da Babilônia);

7ª) presença da expressão “cavalo negro”: no livro de S. João, o cavalo negro surge no terceiro selo para advertir contra o dano ao vinho e ao azeite; no conto de Urbano, o choque entre dois caminhões ocorre na “Praça do Cavalo Negro”;

8ª) linguagem cifrada e sibilina;

9ª) linguagem marcada por polissíndetos da conjunção aditiva “e” (“Apocalipse”) e pela repetição da preposição “sobre” (“A cidade vestida de sangue”), com o mesmo propósito de sugerir o acúmulo de coisas.

A recorrência lexical apontada nesse último item corrobora a assertiva bakhtiniana de que, nas formas de transmissão do discurso de outrem, se manifesta “uma relação ativa de uma enunciação a outra”, não só no plano temático, mas também “através de construções estáveis da própria língua”[3].

Em suma, ao ter um romance do início da década de 1930 e o último livro do Novo Testamento como intertextos, o conto de Urbano afirma “textual e hermeneuticamente – o vínculo com o passado”, além de exigir do leitor “o reconhecimento de vestígios textualizados do passado literário e histórico”[4]. E, acima de tudo, o encontro entre esses três textos é a prova de que a intertextualidade de fato ultrapassa quaisquer fronteiras de gênero e tempo.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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BORNHEIM, Gerd A. Sartre. São Paulo: Perspectiva. 1971.

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CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Lisboa: Livros do Brasil, s/d.

CARVALHO, Sandra H. T. O desespero existencial e a fraternidade social em “Contos da solidão”, de Urbano Tavares Rodrigues. São Paulo: Universidade de São Paulo – FFLCH, mai./2000. (Trabalho não publicado)

HANNE, Maguette. A presença do feminino em “Violeta e a noite” de Urbano Tavares Rodrigues. Dakar: Universite Cheikh Anta Diop – Faculte des Lettres et Sciences Humaines, jun./1994.(Trabalho não publicado)

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. São Paulo: Edibolso, 1976.

LOPES, Óscar.”Urbano Tavares Rodrigues: Prefácio da 2 ed. de As aves da madrugada.”in:Os sinais e os sentidos – Literatura portuguesa do século XX. Lisboa: Caminho Editorial, 1986.

REIS, Carlos. Técnicas de análise textual. Coimbra: Almedina, 1981.

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SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo; tradução e notas de Vergílio Ferreira. Lisboa: Editorial Presença, s/d.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Petrópolis: Vozes, 1997.



[1]Apud Linda Hutcheon. op. cit. p.167.

 

[2] RODRIGUES, U. T. Contos da solidão. Lisboa: Europa-América, s/d.p.51-52, 54-56.

[3] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1995.p.145.

[4] HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.p.164, 167.